O QUE É DVRT – DISTÚRBIO VOCAL RELACIONADO AO TRABALHO?

MINISTÉRIO DA SAÚDE

Secretaria de Vigilância em Saúde

Departamento de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador

 

 

 

 

 

Distúrbio de Voz

Relacionado ao Trabalho

 

 

 

 

Saúde do Trabalhador

Protocolo de Complexidade Diferenciada

 

 

Série A. Normas e Manuais Técnicos

 

  1. RECOMENDAÇÕES

 

6.1 Diagnóstico

6.1.1 Quadro Clínico – Sinais e Sintomas

O DVRT manifesta-se pela presença de diversos sinais e sintomas que podem estar presentes concomitantemente ou não, variando de acordo com a gravidade do quadro clínico. Os sintomas mais frequentes são: cansaço ao falar, rouquidão, garganta/boca seca, esforço ao falar, falhas na voz, perda de voz, pigarro, instabilidade ou tremor na voz, ardor na garganta/dor ao falar, voz mais grossa, falta de volume e projeção vocal, perda na eficiência vocal, pouca resistência ao falar, dor ou tensão cervical.

É importante caracterizar os sinais e sintomas quanto ao tempo de duração, forma de instalação e fatores de melhora e piora.

O início dos sintomas geralmente é insidioso, com predominância nos finais de jornada de trabalho ou no fim da semana e diminuição destes após repouso noturno ou nos finais de semana. Aos poucos, os sintomas vão se tornando presentes continuadamente durante a jornada de trabalho ou durante todo o dia, sem recuperação, mesmo com repouso vocal. Nesta fase, dificilmente o trabalhador consegue exercer sua função com a eficiência esperada, principalmente nos episódios de disfonia intensa.

O quadro de DVRT também pode estar associado a sintomas de sofrimento mental face às exigências da organização do trabalho. A necessidade de responder a estas exigências, o medo do desemprego, a falta de informação e outras contingências do mundo do trabalho contemporâneo fazem com que o trabalhador suporte esses sintomas e continue trabalhando, até que haja um agravamento do quadro e a terapêutica adotada exija maior complexidade.

6.1.2 Avaliação do DVRT

Para o diagnóstico do DVRT devem ser levados em consideração os seguintes aspectos:

  1. a) história clínica, laboral (condições e fatores de risco ambientais e organizacionais do trabalho) e epidemiológica;
  2. b) avaliação médica clínica, preferencialmente realizada por otorrinolaringologista e, quando necessário, exames complementares;
  3. c) avaliação clínica fonoaudiológica da voz;
  4. d) avaliações complementares a critério dos especialistas.

 

Especificamente na elaboração da história clínico-laboral é fundamental investigar os aspectos clínicos da doença (sinais e sintomas, exames complementares) bem como aspectos relativos ao ambiente, como exposição a ruído, poeira, temperatura e luminosidade inadequadas, e ao processo de trabalho, que incluem dados sobre a rotina laboral como duração da jornada de trabalho, exigência de tempos e pausas, existência de sobrecarga vocal e psíquica, competição sonora, formas de pressão e mecanismos de controle, exigência de produtividade, ausência de flexibilidade de tempo, mudanças no ritmo ou na organização do trabalho dentre outros.

A doença deve ser relacionada ao trabalho mesmo quando houver outros fatores ou comorbidades não relacionados à atividade laboral. O princípio da concausalidade embasa esta afirmação considerando que podem coexistir causas antecedentes, concomitantes e subsequentes ao distúrbio da voz, sem que estas impeçam o estabelecimento de sua relação com o trabalho (Monteiro, 2004).

6.1.3-Diagnóstico Diferencial

As disfonias são divididas em três grandes categorias etiológicas (Behlau e Pontes, 1995):

 

  1. Disfonia orgânica: é a alteração vocal que independe do uso da voz, podendo ser causada por diversos processos, com consequência direta sobre a voz. Como exemplos, podemos citar alterações vocais por carcinoma da laringe, doenças neurológicas, inflamações ou infecções agudas relacionadas a gripes, laringites e faringites.

 

  1. Disfonia funcional: é a alteração vocal decorrente do próprio uso da voz, ou seja, um distúrbio do comportamento vocal. Pode ter como etiologia o uso incorreto da voz, inadaptações vocais e alterações psicogênicas, que podem atuar de modo isolado ou concomitante.

 

  1. Disfonia organofuncional: é a alteração vocal decorrente de lesão estrutural benigna secundária ao comportamento vocal inadequado ou alterado. Geralmente, é uma disfonia funcional não tratada, ou seja, por diversas circunstâncias a sobrecarga do aparelho fonador acarreta uma lesão histológica benigna das pregas vocais.

 

Uma vez que os quadros de disfonia funcional e organofuncional são desencadeados pelo uso intenso da voz, é necessário estabelecer essa relação com o exercício profissional.

Vale ressaltar que trabalhadores com lesão em prega vocal ou disfonia, podem apresentar voz adaptada, com resistência e qualidade vocal aceitáveis para determinada função, dependendo da demanda vocal e das condições do ambiente de trabalho proporcionadas (Vilkman, 2000). Este dado é extremamente importante, uma vez que muitos trabalhadores são excluídos do mercado de trabalho por não se enquadrarem no conceito pré-determinado de “normalidade”.

 

 

6.2 Tratamento e Reabilitação

A avaliação clínica médica (realizada preferencialmente por otorrinolaringologista) e fonoaudiológica (realizada preferencialmente por especialista em voz) são fundamentais para a definição do planejamento terapêutico. O programa de tratamento e reabilitação deve ser específico para cada caso, buscando a recuperação da saúde do trabalhador. Em alguns casos, pode haver a necessidade de tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico. A reabilitação fonoaudiológica é um importante instrumento no tratamento, possibilitando a adaptação vocal e o breve retorno do indivíduo trabalhador ao seu ambiente de trabalho.

O DVRT não pode ser tratado de forma desvinculada da função laboral, sob o risco de limitar a eficácia da intervenção. O diagnóstico e tratamento precoce do DVRT possibilitam melhor prognóstico, sendo que a ação terapêutica multidisciplinar, em seu conjunto, deve incluir ações ambientais, sobre as condições e a organização do trabalho.

A indicação da necessidade de afastamento deve ser feita com base nos relatórios dos especialistas. Durante o tratamento, o trabalhador pode permanecer em sua função ou, havendo a necessidade, afastar-se temporariamente, decisão que cabe ao médico do trabalho  para evitar agravamento do quadro vocal ou prejuízo ao exercício da sua função..

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Uma vez excluída a possibilidade de reabilitação concomitante ao exercício profissional, deve ser solicitado o afastamento do trabalhador. Em caso de demanda vocal excessiva, com risco de reincidência ou agravamento do quadro, o trabalhador pode ser readaptado para outra função na qual haja menor risco na utilização da voz.

Aos profissionais de saúde, cabe identificar os riscos à saúde vocal, propor ações de promoção e prevenção e vigilância em saúde e assegurar atenção integral ao trabalhador.

 

6.3 Prevenção

A prevenção como ação prioritária da VISAT tem como característica fundamental o seu caráter transformador através do compromisso ético em busca da melhoria dos ambientes e processos de trabalho. Além disso, visa ao desenvolvimento de ações que contenham caráter proponente de mudanças, de intervenção e de regulação sobre os fatores determinantes dos problemas de saúde relacionados ao trabalho, num processo de negociação compartilhada para promoção da saúde.

A prevenção pressupõe identificação de situação de risco, vulnerabilidade ou de impacto à saúde dos trabalhadores que representem um problema coletivo. A intervenção deve considerar os aspectos potenciais de frequência e gravidade dos agravos, dos riscos, da exposição ou da situação de vulnerabilidade. Trata-se da identificação da relevância de um determinado problema de saúde ou situação de risco a ser enfrentado.

Com base em critérios epidemiológicos deve-se considerar a capacidade de intervenção da vigilância em saúde registrados no âmbito do SUS e definidos por dimensão e gravidade ou por estimativas

Um dos princípios relevantes na prática da VISAT é o da Precaução. Este compreende prevenir possíveis agravos à saúde dos trabalhadores causados pela utilização de processos produtivos e tecnologias, uso de substâncias químicas, equipamentos e máquinas entre outros, que mesmo na ausência da certeza científica formal da existência de risco grave ou irreversível à saúde requer a implantação de medidas que possam prevenir danos, ou por precaução, a tomada de decisão de que estas tecnologias não devam ser utilizadas.

Como medidas preventivas, considerando os fundamentos da VISAT, incluem-se a adoção de ações de proteção e prevenção da saúde vocal, que devem atender às particularidades dos ambientes de trabalho. Entre elas podemos citar:

  1. identificação e redução/eliminação dos riscos existentes à saúde vocal no ambiente e organização do trabalho;
  2. identificação precoce de queixas e alterações vocais por meio de avaliação médica periódica e encaminhamento ao fonoaudiólogo, quando necessário, para avaliação da voz ou reabilitação;
  3. ações educativas voltadas à promoção de saúde e prevenção de queixas/alterações vocais, voltadas à adequada utilização da voz no ambiente de trabalho.
  4. ações educativas para melhoria dos padrões de comunicação oral, incluindo treinamento de voz e medidas preventivas.

 

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